A REVOLUÇÃO DE SETEMBRO

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No verão de 1836, o regime liberal instaurado com o fim da guerra civil, dois anos antes, vivia em crise permanente. Os gover­nos afundavam-se na corrupção e distribuíam entre os seus apoiantes as riquezas resultantes da pilhagem das ordens religiosas e da venda dos bens nacionais: ficaram para a história como os devoristas.

Insatisfeitos com a repartição desigual do poder e dos "empre­gos", os chefes civis e militares das diferentes facções não se entendiam. À margem da reduzida classe política (para se poder votar era preciso ter rendimentos avultados e para se ser eleito ainda mais), o povo vivia à míngua. Sucediam-se os desacatos nas cidades e o banditismo nos campos.

Em Julho, o Governo chefiado pelo duque da Terceira entrou em choque com as Cortes e obteve da rainha D. Maria II a dissolução da Câmara dos Deputados. Nas eleições que se seguiram, apesar de o Gover­no ter ganho com larga maioria, a oposição venceu nas Beiras, no Algarve e sobretudo no Porto, onde em 28 deputa­dos elegeu 27.

Os oposi­cionistas eram chefia­dos pelos irmãos Manuel e José da Silva Passos, que representa­vam os interesses da burguesia comercial e industrial da capital do Norte.

Em Lisboa, o clima social era escaldante. O preço do pão não parava de aumentar, enquanto os ordenados dos funcionários públicos e dos operários eram pagos com atraso, quando eram.

A extrema esquerda da época manipulava o descontentamento popular a partir dos clubes políticos, com destaque para o dos Camilos – que em 1838 deu lugar ao dos arsenalistas, por ter passado a reunir no Arsenal -, onde dava nas vistas pelo seu radicalismo o jovem Costa Cabra!.

A 9 de Setembro de 1836, os deputados eleitos pelo Porto chegaram a Lisboa a bordo do vapor Napier.

O Governo tinha proibido manifestações mas, às quatro da tarde, Passos Manuel e companheiros desembarcaram no Terreiro do Paço apinhado de gente, entre foguetes e vivas. Desfilavam a caminho das Cortes, em S. Bento, quando começaram a ouvir-se "morras" à Carta e "vivas" à Constituição de 1822.

A Guarda Municipal foi enviada contra os manifestantes mas confraternizou com eles e o mesmo fez o exército.

Um conhecido activista dos clubes radicais, Soares Caldeira, assumiu-se como porta-voz da revolução e fez chegar à rainha o pedido para que proclamasse a Constituição vintista, enquanto os populares exaltados marchavam para o palácio real e dai para Campo de Ourique, onde passaram a noite.

No dia seguinte, D. Maria II demitiu o duque da Terceira, restaurou a Constituição de 1822 e deu posse ao Governo "setembrista" presidido pelo conde de Lumiares, mas na verdade dominado por Sá da Bandeira e Passos Manuel.

Em Novembro de 1836, com o apoio do povo e da recém­-criada Guarda Nacional, os setembristas desfeitearam o golpe da Belenzada, patrocina­do pela rainha e pelo príncipe consorte D. Fernando.

Até à reunião das Cortes Constituintes, em Janeiro de 1837, o Executivo governou sem Parla­mento, logo em "ditadura". Mal os novos deputados se reuniram, manifestaram-se as dissensões entre setembristas (moderados e radicais) e cartistas. Passos Manuel não foi poupado pela es­querda radical, que lhe chamava "ditador". Magoado com a baixa política, demitiu-se a 1 de Junho de 1837. Depois do falhanço de mais um golpe da direita, a Revol­ta dos Marechais, e do êxito par­cial de um golpe da esquerda, a Revolta do Arsenal, a nova Cons­tituição foi aprovada em Abril de 1838. Tratava-se de um compro­misso entre o radicalismo da lei fundamental vintista e a Carta Constitucional que dava grande peso ao poder real. Em Abril de 1839 tomou posse o barão de Sabrosa, à frente do último Exe­cutivo setembrista. Durou pouco mais de seis meses. Sucedeu-lhe um Governo em que pontificava o ex-esquerdista Costa Cabral. Em 1842 foi este quem restaurou a Carta e passou a governar com pulso de ferro.

 

(J. Ferreira in NS – histórias da História)

 

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CIDADE VELHA DE SANTIAGO – CABO VERDE

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No concelho da Ribeira Grande de Santiago, a 15 quilómetros a oeste da cidade da Praia, na costa da ilha de Santiago em Cabo Verde, encontramos mais uma das 7 maravilhas de origem portuguesa no mundo que tenho  vindo a apresentar aqui neste blogue: a Cidade Velha de Santiago.


Esta foi a primeira cidade construída pelos europeus em território a sul do Saara e constituiu a primeira capital de Cabo Verde, sendo, à época, chamada de Ribeira Grande. O seu nome foi mudado para evitar ambiguidade com outra povoação de outra ilha com o mesmo nome.


Tendo nascido e crescido à conta do tráfico negreiro, a Cidade Velha teve um papel essencial no desenvolvimento do comércio mundial e da navegação de longo curso, servindo como local de aprovisionamento de navios e comércio de escravos.


Este serviu também de ponto de paragem de dois grandes navegadores: Vasco da Gama, em 1497, a caminho da Índia, e Cristóvão Colombo, em 1498, na sua terceira viagem para as Américas.


Em 1520 foi erguido o primeiro pelourinho da ilha, que é hoje um dos monumentos mais importantes da cidade velha. Era aqui que os escravos e os considerados marginais eram açoitados.

 

Também aqui encontramos a mais antiga igreja colonial do mundo: construída em 1495, a Igreja de Nossa Senhora do Rosário é um importante testemunho do estilo manuelino. Nesta igreja pregou o Padre António Vieira, em 1652, de passagem para o Brasil, vindo de Portugal. Na altura, o que mais surpreendeu ao grande orador português foi o facto de ter encontrado clérigos e cónegos dotados de uma sabedoria, que segundo ele próprio, faziam inveja aos melhores do Reino.

 

A Rua Banana, que conduz à igreja, foi a primeira rua de urbanização portuguesa nos trópicos. Nesta rua moravam os grandes proprietários de terras de Santiago e de Fogo. Paralelas à Rua da Banana existiam duas outras ruas: a da Carreira e a de Nossa Sr.ª do Rosário, onde se encontra a igreja do mesmo nome, sede da congregação dos homens negros da cidade.


A Sé Catedral da cidade começou a ser construída em 1555, só tendo sido terminada em 1693, quando a cidade já tinha perdido muita da sua importância. Em 1712, foi brutalmente atacada por piratas, que a destruíram quase por completo.

Desta resta apenas parte da fachada do edifício. O último arco ruiu em 2002. Mesmo assim a Sé Catedral é um símbolo marcante da história de Cabo Verde e da mestiçagem. Foi a primeira Catedral a ser construída em África, e é ainda hoje a única Sé de Cabo Verde.


O Forte Real de São Filipe, que domina a cidade do alto de 120 metros, foi construído em 1590 para defender a colónia portuguesa dos ataques dos franceses e ingleses.

Este forte foi erguido no contexto da Dinastia Filipina, após os assaltos do corsário inglês Francis Drake em 1578 e em 17 de Novembro de 1585.

Em 1712 foi tomada de assalto por corsários franceses, sob o comando de Jacques Cassard, que, em seguida saquearam violentamente a cidade, incendiando-a. Foi reconstruído na segunda metade do século XVIII.

Sofreu intervenção de conservação e restauro entre 1968 e 1970, e mais recentemente, em 1999. Esta última registou-se no âmbito do plano de recuperação da Cidade Velha, por iniciativa do Ministério da Cultura de Cabo Verde, sob a coordenação do arquitecto português Siza Vieira.

 

Já o Convento de São Francisco, foi edificado em meados do século XVII, tendo constituído um local de culto e formação. Tal como a Sé Catedral, foi atacado e parcialmente destruído no ataque pirata de 1712.

É um dos mais belos edifícios da Ribeira Grande e de Cabo Verde. Situado no alto de uma ladeira, na zona setentrional do município, o Convento de São Francisco foi, durante muito tempo, um local de recolhimento para os frades capuchos.

É um óptimo espaço para meditar e desfrutar do silêncio. Data de 1640 e terá sido propriedade de uma mulher rica, natural de Santiago, chamada Joana Coelha.


No ano 2000, foi iniciado um trabalho de requalificação sob coordenação do arquitecto português Siza Vieira, com vista a preparar a candidatura desta cidade a Património Mundial da UNESCO, categoria que viria a alcançar no dia 26 de Junho de 2009 e que a Unesco justificou pelo facto desta ser “um testemunho da história da presença da Europa colonial em África e da história da escravatura". Também determinante foi o seu elevado interesse histórico e patrimonial, do qual se destacam o traçado das ruas, as "ruínas de duas igrejas, uma fortaleza real e uma praça com um pilar de mármore do século XVI", afirma o comité responsável por esta nomeação.


A Cidade Velha de Santiago é o primeiro local cabo-verdiano inscrito na lista de locais Património Mundial da UNESCO.

 

 

 

(Informações recolhidas na internet)

 

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ARISTIDES DE SOUSA MENDES

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No memorial Yad Vashem, às vitimas do Holocausto, em Jerusalém, há uma árvore com um nome português. Esse nome é o de Aristides de Sousa Mendes, a quem já chamaram "o Schindler português", por comparação com outro herói da humanidade que se tomou famoso graças ao filme “A Lista de Schindler”. Mendes também teve a sua lista: salvou de morte certa 30 mil perseguidos pelos nazis. Para isso desobede­ceu a ordens directas de Salazar e arruinou uma brilhante carreira de diplomata. Foi demitido por te­legrama, a 23 de Junho de 1940.

Aristides de Sousa Mendes do Amara! e Abranches nasceu em 19 de Julho de 1885, em Cabanas de Viriato, Viseu. Licenciou-se em Direito na Universidade de Coim­bra, em 1907, e seguiu a carreira diplomática. No ano seguinte, ca­sou-se com uma prima, Angelina, com quem teve 14 filhos.

Católico, monárquico e conservador, não se deu bem com a I República. O gol­pe de 28 de Maio de 1926 trouxe-lhe vantagens. Em 1932, Salazar tornou-se presidente do Conselho de Ministros e nomeou para a pasta dos Negócios Estrangeiros o seu irmão gémeo César de Sousa Mendes, que ocupou o cargo apenas nove meses. Cônsul em Bordéus, Aristides assistiu ali ao início da II Guerra Mundial.

Prevendo um afluxo de refugiados a Portugal, neutro no conflito, Salazar (que entretanto acumulara a pasta dos Estrangei­ros) enviou ao corpo diplomático novas regras para a concessão de vistos. Foi a Circular nº 14, de Novembro de 1939. O documen­to proibia os cônsules de conce­derem passaportes ou vistos a "estrangeiros de nacionalidade indefinida, contestada ou em litígio", apátridas e judeus, "quer tenham sido expulsos do seu país de origem ou do país de onde são cidadãos".

 

Perante a ofensiva irresistível da Blitzkrieg alemã, em Junho de 1940, o Governo francês abandonou Paris e fez de Bordéus a capital. Tropas em retirada e civis em pânico rumaram ao Sul pelas estradas apinhadas. À chegada a Bordéus, milhares de refugiados procuravam imediatamente o Consulado de Portugal. Um visto para Lisboa abria as portas para a liberdade.

Para obedecer às ordens, Sousa Mendes teria de pedir autorização, por escrito, caso a caso. No dia 16 de Junho de 1940, um domingo, Sousa Mendes viu a cidade a rebentar pelas costuras com a vaga de refugiados – e tomou uma deci­são. Daí em diante não olharia mais a nacionalidades, raças ou religiões. Daria vistos a todos quantos lhos pedissem.

Ele sabia aquilo de que os nazis eram capazes e estava disposto a sacrificar a sua obediência de funcionário – logo, a carreira, para evitar a morte de inocentes. Passou os dias seguintes a assi­nar vistos, sem cobrar taxa. Entre os que entraram em Portugal com visto assinado por Sousa Mendes contam-se o filho do último impe­rador austríaco, arquiduque Otão de Habsburgo, e o actor norte-americano Robert Montgo­mery. A 23 de Junho, informado do que se passava, Salazar tele­grafou para Bordéus comunicando a demissão de Sousa Mendes.

A desobediência foi conside­rada uma afronta intolerável pelo ditador. Decidiu fazer de Sousa Mendes um exemplo para a admi­nistração pública em geral e o corpo diplomático em particular. Instaurado um processo discipli­nar, o ex-cônsul foi condenado a "um ano de inactividade com direito a metade do vencimento da categoria, devendo em segui­da ser aposentado".

Reformado aos 55 anos, sem direito a exercer a profissão de advogado, nem sequer licença de condução (a carta, obtida no estrangeiro, foi-lhe retirada), Sousa Mendes, ainda com muitos filhos a cargo, afundou-se. Ameaçado pela fome, aceitou o apoio da Comunidade Israelita de Lisboa, incluindo a oferta de refeições. Foi a comunidade judaica que facilitou a emigração de alguns dos seus filhos para os Estados Unidos.

A 3 de Abril de 1954, Aristides de Sousa Mendes morreu no Hospital da Ordem Terceira de S. Francis­co, em Lisboa, de uma trombose agravada por uma pneumonia, na mais negra miséria.

 

 

O motivo que levou Aristides de Sousa Mendes a desobedecer a Salazar perma­neceu um mistério durante décadas. Uma carta da historia­dora Margarida de Magalhães Ramalho, publicada no semaná­rio Expresso de 9 de Julho de 2005, veio ajudar a esclarecê-lo.

A carta reproduz, a pedido do filho do cônsul, Pedro de Sousa Mendes – falecido dias antes, a 28 de Junho de 2005 -, a frase exacta que Aristides proferiu quando, "após três dias deitado na cama", se decidiu a "ganhar a honra" e desobedecer às or­dens do ditador: "Ouvi uma voz que me disse que me levantas­se e fosse dar vistos a todos os que precisassem."

Pedro de Sousa Mendes tinha 20 anos quando, na manhã de 16 de Junho de 1940, viu o pai come­çar a passar vistos aos refugia­dos para Portugal até as mãos lhe doerem.

 

(J. Ferreira in NS)

 

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CAROLINA MICHAELIS DE VASCONCELOS

Os diversos apelos, as palavras de carinho e as mais variadas expressões de amizade de alguns amigos
comoveram-me e gritaram mais alto,
levando-me a reconsiderar a minha tomada de posição.
Por isso aqui estou de volta, mais cedo do que tinha previsto.
A todos os amigos que contribuiram para esta mudança, deixo aqui o meu reconhecimento e um abraço de grande amizade.

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Nunca se filiou em nenhuma agremia­ção feminista, mas esteve sempre dis­posta a colaborar nas acções promo­vidas com vista à afirmação da mulher na vida política, social e económica do país.

Nascida em Berlim (Alema­nha), a 15 de Março de 1851, Ca­rolina Wilhelme Michäelis de Vasconcelos frequentou a Esco­la Superior Municipal para jo­vens do sexo feminino daquela cidade, entre os 7 e os 16 anos. Nesse período conviveu com nomes sonantes da cultura ale­mã, como os irmãos Grimm, Humboldt e Ense, entre outros.

Uma vez que na Alemanha o ensino superior estava ainda ve­dado às mulheres, foi orientada nos estudos por Carlos Gold­beck, professor naquela escola, que lhe despertou a curiosida­de pelas línguas espanhola e portuguesa. Aos 14 anos, a jo­vem Carolina começa também a dedicar-se ao estudo das lín­guas e das literaturas clássicas, românicas, semíticas e eslavas.

Em 1872, é nomeada intérpre­te oficial das línguas ibéricas.

Com a polémica gerada em tor­no da”tradução de “Fausto”, feita por António Feliciano de Cas­tilho, a jovem inicia correspon­dência com vários escritores portugueses, entre os quais, aquele que viria a ser seu mari­do, Joaquim António da Fonse­ca de Vasconcelos, musicólogo e historiador de arte.

O casamento, realizado em 1876, trá-la para Portugal, mais concretamente para o Porto.

Em 1911, já reformada da carrei­ra docente, é convidada para dar aulas na recém-criada Faculda­de de Letras de Lisboa, mas as­sim que pôde pediu transferência para a de Coimbra, onde foi responsável pela cadeira de Fi­lologia Portuguesa.

Em sua hon­ra, em 1983, o Instituto de Estu­dos Românicos passou a desi­gnar-se Instituto de Língua e Li­teratura Portuguesas – D. Caro­lina Michäelis de Vasconcelos.

Foi a primeira mulher a ensi­nar numa universidade portu­guesa e também a primeira a per­tencer à Academia de Ciências de Lisboa.

Foi ainda sócia hono­rária do Instituto de Línguas Vi­vas de Berlim (1877) e doutora “honoris causa” da Universida­de “de Friburgo (1893), da de Coimbra (1816) e da de Hambur­go (1923).

Em 1914, foi nomeada presidente honorária do corpo administrativo do Conselho Nacional das Mulheres Portugue­sas, como forma de reconhecimento pelo seu empenho na melhoria da condição feminina.

Morreu a 16 de Novembro de 1925, em sua casa, situada na Rua da Cedofeita, no Porto.

Uma das principais escolas secundárias do Porto ostenta de há muito o seu nome, estendido no início do século XXI à estação do me­tro situada nas proximidades.

 

(Fátima Mariano in JN de 5-6-2010)

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AUSÊNCIA

Durante esta curta ausência aproveitei para fazer um breve balanço dos dois anos de existência deste meu espaço.

Infelizmente a conclusão não é das melhores, e os objectivos a que me propus quando criei este espaço ficaram muito aquém daquilo que inicialmente tinha idealizado, deixando um sabor de boca bastante desagradável e a sensação de uma obra inacabada.

A falta de disponibilidade deu origem a escassas actualizações deste blogue, e impediram-me de visitar os blogues dos amigos com a frequência que desejaria.

Tudo isto acabou por acarretar o afastamento de alguns desses mesmos amigos, o que compreendo perfeitamente.

Àqueles que se mantiveram fiéis nas suas regulares visitas deixo aqui o meu agradecimento pela sua dedicação e simpatia.

Isto não é uma despedida nem um pré-aviso de encerramento deste espaço. Trata-se apenas de uma justificação para as ausências prolongadas que eventualmente se seguirão a partir desta data.

Sempre que me for possível, virei até aqui para fazer uma visita, ainda que curta, aos meus amigos mais dedicados, e que certamente jamais esquecerei.

Fica a recordação de experiências vividas e de amizades adquiridas, que sem a existência deste espaço nunca teria conseguido.

A todos deixo aqui o meu reconhecimento e o carinho de uma amizade que jamais esquecerei.

Até sempre.

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INQUISIÇÃO…MEDO, TORTURA E FOGUEIRAS (A contribuição do Tribunal do Santo Ofício para manter Portugal no atraso e na ignorância)

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O Tribunal do Santo Ofício foi estabelecido em Portugal pela bula Cum ad nihil magis, do Papa Paulo III, a pedido do rei D. João III, a 23 de Maio de 1536. Criado em 1216, pelo Concílio de Latrão, para reprimir a heresia dos cátaros, no Sul de França, o seu objectivo era inquirir – daí ter ficado conhecido pelo

nome de Inquisição – da existência de hereges, persegui-los e castigá­-los. A sua missão era garantir a uni­formidade religiosa, base da ordem política e social. Cumpriu-a durante quase três séculos, criando um cli­ma de medo e intolerância, assente na denúncia, na prisão, na tortura e no temor da morte na fogueira.

A Inquisição só foi extinta no nosso país em 1821, na sequência da revolução liberal de 1820.

 

Como por cá rareassem as heresias – o protestantismo não encontrou acolhimento em Por­tugal – , os inquisidores dirigiram o seu zelo contra cristãos-novos (judeus convertidos), mouriscos, gentios (em Goa), blasfemos, possuidores de livros proibidos, praticantes de bruxaria, adúlteros, bígamos e sodomitas.

A denúncia, anónima, era recom­pensada.

A Inquisição dispunha de um corpo de funcionários – os familiares do Santo Ofício – e da força pública para fazer cumprir diligências e executar sentenças. Os interrogatórios eram realizados de acordo com a prática de inves­tigação judicial da época.

A prova­-rainha era a confissão e, para a obter, usava-se o método mais efi­caz: a tortura. Esta recorria a uma variedade de instrumentos de suplicio, dos quais os mais comuns eram o potro e a polé.

No potro, os suspeitos eram colocados des­pidos sobre uma mesa com cor­das que esticavam os membros. Era um suplício mais "leve", geral­mente aplicado aos mais fracos, às mulheres e aos velhos.

Os "tratos de polé" consistiam na colocação do interrogado numa estrutura de madeira ligada a duas roldanas, através das quais o corpo era iça­do, carregado de pesos que iam aumentando. De repente, solta­vam-se as cordas de uma das rol­danas, de modo a que o impacto sofrido pelo corpo provocasse rupturas musculares e partisse os ossos.

Quando o suspeito não morria no interrogatório, quase sempre acabava por confessar. Julgado e condenado, saía então no auto-da-fé, o momento alto de afirmação do poder do Santo Ofício.

As penitências iam desde os açoites à condenação às galés, da prisão ao degredo, passando pelo uso do hábito penitencial, o sambe­nito, até à execução pelo fogo.

O primeiro auto-da-fé em Portugal realizou-se em Lisboa, em 20 de Setembro de 1540. O último também foi em Lisboa, em 1766, mas não teve execuções: o último queimado vivo foi o padre jesuíta Gabriel Malagrida, em 1761, con­denado por blasfémia, por dizer que o terramoto de 1755 tinha sido castigo divino.

A partir do século XVIII, os defen­sores da filosofia das Luzes criaram uma "lenda negra" à volta da Inqui­sição, que exagerou o número de vítimas e atribuiu em exclusivo à Igreja Católica a responsabilidade pela sua acção, o que não é rigo­rosamente verdade.

A Inquisição tinha um duplo estatuto: era um tribunal eclesiástico, mas também um tribunal da coroa. Nos casos mais graves, os condenados eram "relaxados em carne ao braço secular" – a Igreja não matava, isso cabia aos tribunais civis.

Em Portugal continental, se dividir­mos o total de relaxados (1865, segundo o historiador Francisco Bethencourt) pelo número de anos

que durou a Inquisição, entre 1536 e 1821 (285), obtém-se a média de 6,5 condenados à morte por ano – bem longe da hecatombe que a "lenda negra" dá a entender.

Portugal pagou caro a Inquisição.

Muitas das melhores cabeças e dos burgueses mais empreendedo­res fugiram e puseram o seu saber e os seus bens ao serviço de ou­tros países, como a Holanda. Entre os réus mais célebres da Inquisição em Portugal contam-se o médico Garcia de Orta, o huma­nista Damião de Góis, o sapateiro­-profeta Bandarra, o padre António Vieira, o dramaturgo António José da Silva, o escritor Cavaleiro de Oliveira e o poeta Bocage.

 

O Brasil nunca teve um tribunal oficialmente instalado, mas a Inquisição actuou através de seus agentes – comissários e familiares, auxiliados pelo clero local, principalmente jesuítas.

 A Inquisição promoveu perseguições em diversas regiões do Brasil, principalmente na Baia, Pernambuco, Rio de Janeiro, São Paulo, Paraíba, Maranhão, Minas Gerais, Goiás.

No Brasil foram presos 1076 pessoas, dos quais vinte e nove receberam sentença de morte, sendo os acusados de Judaísmo, os únicos a morrerem na fogueira.

 

 

(J. Ferreira in NS e outros)

 

 

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O IMPERADOR DA LÍNGUA PORTUGUESA

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O padre António Vieira, a quem Fernando Pessoa chamou "o imperador da língua portugue­sa", pode ser ainda qualificado como o defensor dos judeus e dos índios, missionário, agente secreto e escritor genial.

 

Nasceu em Lisboa (1608-1697. Aos sete anos, António partiu com a família para o Brasil, onde o pai, da baixa nobreza, foi ocupar o cargo de secretário da Governação. Estudou no colégio jesuíta da Baía, entrou para a Companhia de Jesus em 1623 e foi ordenado pa­dre em 1634, com 26 anos.

 

Os seus dotes oratórios já tinham começado a dar nas vistas quan­do, perante a ameaça de um ata­que holandês, em 1640, pregou na Baía um sermão aguerrido: ‘Pela vitória das nossas armas’.

 

Reconhecido como aquilo a que hoje se chamaria um especialista em comunicação, o jesuíta foi escolhido para fazer parte da delegação que, em 1641 veio a Portugal manifestar a D. João IV o apoio do Brasil à Restauração.

Em Lisboa foi um êxito. Os seus sermões em linguagem clara, cheios de metáforas para melhor ilustrarem o que pretendia comu­nicar, comoveram o rei, que o nomeou pregador da capela real.

 

A habilidade com que Vieira usava o púlpito para transmitir a sua "agenda política" não passou despercebida a D. João IV, que o incumbiu de delicadas missões secretas no estrangeiro.

O jesuíta passou os anos de 1646 e 1647 em viagens diplomáticas a França e à Holanda. Foi ainda a Roma, oficialmente para tentar junto do Papa uma reconciliação luso­-espanhola, mas na verdade para promover uma revolta em Nápoles contra a coroa de Madrid.

As manobras falharam, mas nes­sas viagens contactou as comuni­dades de judeus portugueses em Rouen (França) e Amesterdão (Holanda). No regresso, conven­ceu o rei a acabar com a pena de confisco dos bens por delito de judaísmo, que a Inquisição aplica­va por sistema aos cristãos-novos Judeus convertidos) suspeitos. Os inquisidores nunca mais lhe perdoaram. Foi também Vieira o principal impulsionador da Com­panhia Geral do Comércio do Brasil, destinada a captar investi­mentos dos judeus portugueses no estrangeiro.

 

O apoio de Vieira ao rei num liti­gio com os jesuítas colocou-o à beira de ser expulso da sua ordem religiosa. Para evitar a expulsão regressou ao Brasil.

No Maranhão conviveu com os índios e envol­veu-se em disputas com os colo­nos que os escravizavam. Data dessa altura (1654) o ‘Sermão de Santo António aos Peixes’, em que escreveu: "Os homens, com suas más e perversas cobiças, vêm a ser como os peixes, que se comem uns aos outros (…) e os grandes comem os pequenos."

Os colonos dispensavam o acica­te – e obrigaram o padre a voltar a Lisboa, em 1661. Não se deu bem. O seu protector, D. João IV, morrera em 1657, e o conde de Castelo Melhor, ministro do novo rei D. Afonso VI, desterrou-o quando soube que Vieira conspi­rava a favor do infante D. Pedro.

 

Em 1662, a Inquisição abriu-lhe um processo, acusando-o de ter opiniões heréticas. O pretexto foi o livro ‘Quinto Império do Mundo, Esperanças de Portugal’, no qual anunciava a ressurreição de D. João IV.

Recordando as profecias de Gonçalo Anes Bandarra, sapateiro de Trancoso, que fala­vam da vinda de um rei Enco­berto para salvar Portugal, durante a dinastia dos Filipes, o Encoberto foi identificado como D. Sebastião. O padre António Vieira combinou as leituras de Bandarra com uma interpretação profética da Bíblia. Para ele, esse rei era D. João IV, que havia de res­suscitar para fundar o "quinto império universal", português e cristão. As ideias messiâ­nicas de Vieira são desenvol­vidas nas suas obras ‘Quinto Império’, ‘Clavis Prophetarum’ e ‘História do Futuro’.

 

Foi proibido de pregar e conde­nado a prisão numa das casas dos jesuítas.

Salvou-o o golpe de Estado de D. Pedro, em 1667, que destronou o irmão. Vieira partiu para Roma, onde os seus sermões encan­taram o Papa. Em Itália, estreitou relações com os judeus e escre­veu contra a Inquisição. Antes de voltar, obteve de Clemente X um salvo-conduto que impedia os inquisidores portugueses de o incomodarem. Chegou a Lisboa em 1675, já com 67 anos.

A pro­tecção papal foi preciosa: o Santo Ofício gozava agora dos favores do regente (futuro D. Pedro II) e este ignorou o antigo apoiante. Magoado, Vieira tratou da publi­cação dos sermões e regressou ao Brasil.

Ainda se envolveu na política local, voltando a defender a abo­lição da escravatura dos Índios e mergulhou na escrita profética. Morreu na Baía, a 17 de Junho de 1697, com quase 90 anos.

 

 

(J. Ferreira in NS histórias da História)


 

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