D. SEBASTIÃO “A maravilha fatal da nossa idade”

RetratoD_Sebastiao

Camões chamou a D. Se­bastião "Maravilha fatal da nossa idade". Era um elogio, mas a palavra a reter é "fatal". Do nascimento à morte, o Desejado foi uma figura trágica – e polémica.

Um rei inepto arrastou o País para a derrota numa guerra inútil que decapitou a elite nacional e ditou a perda da independência. Na batalha de Alcácer Quibir, travada a 4 de Agosto de 1578, a inép­cia condenou D. Sebastião não só como chefe militar – comandou mal, perdeu e morreu – mas sobretudo como chefe de Estado: o Desejado que veio dar continui­dade à monarquia portuguesa nem sequer acautelou o primeiro dever de um rei, o de assegurar a des­cendência para garantir a suces­são dinástica. Assim, condenou Portugal a ser herdado por Filipe II de Espanha.

Órfão de pai antes de nascer (o príncipe D. João morreu 20 dias antes do parto, em Janeiro de 1554) e abandonado pela mãe com apenas quatro meses (D. Joa­na de Áustria regressou a Espanha em Maio desse ano), D. Sebastião sucedeu ao avô, D. João III, quando tinha três anos. Enquanto a regên­cia passava da avó, D. Catarina, para o tio-avô, cardeal D. Henrique, o menino cresceu educado por velhos jesuítas fanáticos que o criaram na obsessão religiosa. Mal fez 14 anos, o rei assumiu o poder.

De saúde débil e fraco de espírito, sonhava apenas com batalhas, conquistas e a expansão da Fé, dedicando pouco tempo à governação de tão vasto império, profundamente convicto de que seria o capitão de Cristo numa nova cruzada contra os mouros do Norte de África.

Sebastião começou a preparar a expedição contra os marroquinos da cidade de Fez. Filipe II de Espanha, seu tio, recusou participar naquilo que considerava uma loucura e adiou o casamento de Sebastião com uma das suas filhas para depois da campanha.

Pôs em marcha o projecto da "jor­nada de África", contra a opinião avisada, mas pouco firme, da maior parte dos conselheiros – designa­damente da Câmara de Lisboa.

Em Junho de 1578 zarpou de Lisboa uma armada de mais de 900 navios, transportando

24 mil soldados, incluindo dois mil mercenários espanhóis, alemães e italianos. A fina flor da nobreza embarcou como se fosse para uma festa Oliveira Martins escre­veu que depois do desastre foram en­contradas 10 mil guitarras nas areias de Alcácer Quibir. Nem faltaram a es­pada e o escudo de D. Afonso Henri­ques, trazidos da Igreja de Santa Cruz de Coimbra.

Na verdade, o que faltou foi a organiza­ção estratégica e táctica de toda a operação militar. A expedição che­gou a Tânger a 7 de Julho e seguiu para Arzila, onde Mulei Mafamede tentou dissuadir D. Sebastião de continuar, com informações de que Mulei Moluco não queria a guerra. O rei não se deixou convencer. Iniciou a marcha pelo deserto, de Arzila para Larache, na costa, mas a certa altura tomou a direcção de Alcácer Quibir, mais para o interior.

Os portugueses estavam esgotados pela caminhada e pelo calor. A seis quilómetros a noroeste da cidade encontraram as forças de Mulei Moluco: 40 mil homens, sobretudo cavalaria (do lado portu­guês havia apenas três mil cavalei­ros). A incapacidade de D. Sebas­tião para o comando revelou-se desastrosa, apesar da bravura dos combatentes. Sucederam-se ordens e contra-ordens. O rei com­bateu com grande valentia.

Perdida a esperança na vitória, decidiu "morrer sim, mas devagar". Viu cair a seu lado o duque de Aveiro, os condes da Vidigueira, do Redondo e de Vimioso, o barão de Alvito e os bispos de Coimbra e do Porto. Reza a lenda que, abrindo caminho à espadeirada, desapareceu. Mas a crónica da Jornada d’el-rei D. Sebastião às Partes de África descreve a sua morte depois de um mouro velho chamado Lauby lhe ter dado uma cutilada que lhe deitou abaixo a sobrancelha direita. O cadáver nunca foi en­contrado.

Na "Batalha dos Três Reis", como lhe chamam em Marrocos, morre­ram também o aliado Mulei Mafa­mede, afogado no rio Mocazim, e o inimigo Mulei Maluco, de doen­ça. Mas só D. Sebastião se tomou um mito.

Tinha 24 anos..

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2 respostas a D. SEBASTIÃO “A maravilha fatal da nossa idade”

  1. Mar diz:

    bem… vejo que o amigo gosta muito de historia, se quer que lhe diga, eu nem por isso. Quando estudava para mim era uma seca, preferia matemática , fisico -quimica, mas a materia preferida era educação fisica. contudo, lembro-me de D. sebastiao e quando desapareceu , em que os filipes de espanha governaram Portugal ( 3ª dinastia). em que ficou o principe mais desejado e que viria envolto em nevoeiro… é assim mais ou menos não?Mar

  2. Alpha diz:

    Meu amigo, considero seu blog um "espaço de estudo", tamanha a riqueza das informações históricas com que brinda seus leitores! Particularmente, tenho grande interesse pela História – tanto a dos vencedores, quanto a dos vencidos. Para além do prazer desta agradável leitura, tenho a oportunidade de conhecer um pouquinho mais sobre os personagens da Pátria-irmã, o que, é claro, ajuda-me a conhecer também as origens da história de meu próprio país. Obrigada e parabéns pelo excelente trabalho de pesquisa. Aproveito para lhe desejar uma excelente Semana Santa de reflexões e uma ótima Páscoa junto aos seus queridos. Um sincero e fraternal abraço.

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